Se aqui estivesses, dizia-te que não faz mal não estares aqui fisicamente, porque estás no lugar mais importante para mim: no meu coração. E não há lugar onde pudesses estar mais perto de mim, pois não? Dizia-te que às vezes gostava de ser como os outros. Dizia-te que não quero ser mais eu. Dizia-te que quando vou andar de baloiço ao fim da tarde para o jardim é em ti que penso sempre e és tu quem está mais perto do meu coração, nessas alturas. Dizia-te que às vezes penso como seria ser normal. Como seria sentar-me perto dos outros e não sentir medo. Como seria usar vestidos. Como seria não ter pesadelos todas as noites. Dizia-te que às vezes estou muito cansada. Dizia-te que às vezes estou muito feliz com coisas muito pequeninas. Dizia-te que agora tenho uma irmã mais velha que adoro e que tu ias adorar também. Dizia-te que sinto que não faz mal não ter tido uma assim até hoje porque esta é mil vezes melhor. Dizia-te que tenho medo de que os pesadelos nunca passem. Sabes? Todas e todas as noites. Cansam-me. Assustam-me. Metem-me muito medo. Muito. E depois demoro sempre tanto tempo a adormecer outra vez. Dizia-te que gosto de me deitar na relva do jardim sozinha e ver as formas das nuvens no céu e imaginar animais e flores. Dizia-te que tiro fotografias a essas formas porque gosto de ter visto uma nuvem diferente que nunca ninguém viu ou verá. Dizia-te que nunca acredito quando me dizem que o passado não volta. Porque tu saberias como eu sei, que pode voltar. E isso é o que mais assusta, não é? Saber que pode voltar e ser pior. Dizia-te que não gosto de pensar tanto nele mas que não gosto de me esquecer dele. Dizia-te também que um dia gostava de festejar um aniversário e sentir-me feliz nesse dia. Dizia-te que um dia gostava de ter sonhos enquanto durmo. Nunca tive e não sei como será sonhar com uma coisa boa. Dizia-te que se pudesse mandar no meu sonho, no primeiro sonho que tivesse, queria sonhar contigo. Queria sonhar que voltavas e íamos passar um dia inteiro num jardim muito grande e só podia existir o som da caixa de música que me deste. Porque é que tu tinhas de morrer?
